Posted by Mikhail Baraniuk de Queiroz Categories: Marcadores: ,


Da Sucursal, Brasília - Graças aos esforços do governo e de ONGs preocupadas com o futuro de nosso país, foi localizada nesta sexta-feira, 30 de Março de 2012, a última criança que se encontrava fora do sistema escolar brasileiro. Desde 2010 - quando haviam ainda 700.000 crianças fora da escola - o esforço conjunto do governo e sociedade, o que envolveu secretarias de educação de estados e municípios, força policial, conselhos tutelares, agentes de saúde e o inestimável apoio das entidades ligadas ao comércio e à industria, vinha lutando para submeter todos àquele que é o único regime capaz de trazer a paz, pleno emprego e garantir a continuidade do consumo que tem permitido ao Brasil a possibilidade de se manter ligado ao pleno desenvolvimento.

A menor de oito anos foi conduzida para avaliação por psicólogos, psicopedagogos, assistentes sociais, psiquiatras, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, antropólogos e membros do ministério público, isso além de pedagogos de seu município, para avaliar os danos causados pela desobediência à lei que garantia desde 2009 que ela deveria ter estado longe da família e aos cuidados da escola desde pelo menos os 4 anos de idade. Apesar de tudo, parece que a menina passa bem, ainda que sua adaptação à normalidade deva levar alguns anos.

A jovenzinha, quando foi encontrada, trajava um estranho vestido florido, fora de moda e, pior, feito em casa por uma tia que era conivente com o crime. Ao invés das roupas de marca convenientes à sua idade e que valorizassem o seu corpo em formação, suas roupas insistiam em permanecer estranhamente soltas, talvez para facilitar o hábito de correr, pular e subir em árvores, o que também dificultou um pouco a sua captura. Além das roupas, sua pele exibia uma estranha coloração bronzeada que não é adequada a esta época do ano, quando a linda cútis empalidecida de nossas crianças demonstra as horas de proteção dos danosos raios solares proporcionada pelas escolas em tempo integral e pelo tempo gasto em frente do computador.

Demonstrando outra anormalidade para sua idade, seu quarto dispunha de livros e mais livros em estantes, a maioria imprópria para sua idade, incluindo livros de arte, música clássica, ciências naturais e jogos antigos. Não havia, para espanto das autoridades, nenhum video game, computador, aparelho de TV ou Cds da Xuxa, outro direito que lhe era paulatinamente negado. Suas bonecas, algo que nesta idade já não deveria mais estar ali, encontravam-se em prateleiras e casinhas, com panelinhas e roupinhas, muitas feitas pela própria menor, este último fato uma clara afronta às leis que impedem o trabalho infantil.

Do ponto de vista físico, a menor exibia uma musculatura bem desenvolvida em braços, pernas e abdome, ao contrário da encantadora flacidez e obesidade que tornam nossas crianças um exemplo rechonchudo de nosso bem estar econômico. Inquieta, a jovenzinha insistia em não ver televisão, e preferia andar de bicicleta, pular carniça, subir em muros e árvores, brincar de amarelinha, correr e brincar ao ar livre.

Outro fato que alarmou as autoridades foi o fato de não terem encontrado disponíveis na casa os alimentos próprios para a idade. Nenhuma bolacha recheada, salgadinhos, achocolatados prontos ou refrigerantes estavam disponíveis para abrandar a fome da pobre criança que se via obrigada a uma dieta restrita a frutas frescas, vegetais orgânicos, leite, queijo, legumes e cereais integrais. A ausência de um volume razoável de embalagens plásticas disponíveis, e que poderiam ter sido fonte de estímulo tanto ao consumo quanto ao hábito de fazer os úteis brinquedos de sucata industriais das aulas de arte da escola, era baixíssimo e impedia a criança de reconhecer importantes marcas e patentes fundamentais para a sobrevivência de um bom cidadão que as precisa comprar para se alimentar.

A menina, ao encontrar as autoridades que vieram lhe buscar, ao contrário do comportamento normal para a idade, que leva as crianças nessa fase ao esperado diálogo monossilábico adequado constituído dos conhecidos “não sei”, “an-han”, “só” e outras expressões afins, insistia em conversar e questionar a presença dos agentes no local. Sua linguagem demonstrava uma polidez, educação e complexidade que denotavam a fuga do normal esperado e próprio para a idade.

Em uma primeira avaliação observaram-se desvios perigosos na formação intelectual da menina, que insistia que o Brasil não foi descoberto acidentalmente por Cabral, mas que isso fazia parte de um plano imperial mercantilista. Negava que a descoberta aconteceu após uma calmaria durante uma viagem para a Índia, mas insistia na versão subdesenvolvida de que aqui antes se chamava Pindorama, que os indigenas viviam livres e fora de reservas, que não eram indolentes por natureza e que o lugar era muito mais bonito verde e selvagem do que hoje com as nossas ruas, edifícios e pujante industria automobilística. Os conhecimentos matemáticos da criança se voltavam para grandezas e cálculos não apropriados para sua idade, ao invés das noções básicas de soma e subtração e, mais grave, do uso do dinheiro, que é a única fonte pela qual se pode obter a satisfação imediata de desejos. Na cultura geral ela insistia em descrever culturas de outros países e animais exóticos, ao invés de contentar-se com os famosos carocinhos de feijão brotados no algodão e nas festas de Haloween, tão convenientes ao mercado.

A menina perdeu esses anos descobrindo o mundo, plantando jardins com seus pais, reconhecendo plantas e hortaliças que eles mesmos consumiam e que faziam parte de cerca de 40% da alimentação da família. Os armários estavam lotados de conservas caseiras, todas sem as devidas certificações do SIF, da secretaria de saúde ou com os selos de qualidade e embalagens plásticas que podem ser encontradas em nossos supermercados. Pelo menos 15 espécies de frutas e vegetais estavam assim conservados como no tempo das avós, o que coloca em risco o próprio funcionamento do mercado consumidor. A menina parece irrecuperável na sua insistência em considerar melhor o que é feito em casa ao invés do que é comprado em supermercados e sob o devido controle do governo.

Aliás a frequencia da menor a Shopping Centers estava muito abaixo do normal esperado para a idade, e ela era submetida a tardes ao ar livre e a longas caminhadas e brinquedos com criatividade, ao invés do que a maioria dos pais proporcionam a seus filhos em piscinas de bolinhas, centros de jogos eletrônicos e naquilo que mais deveria fazer parte da dinâmica familiar: o consumo de bens e as compras e lanches na praça de alimentação em família. Tardes inteiras de Shopping foram perdidas por essa pequena infeliz.

Nenhum namoradinho ou atitude pré adolescente foi exibida pela menor, mais um flagrante de como a vida dessa pequena estava privada daquilo que faz parte da normalidade das relações a partir dos oito anos. Ela insistia em exibir um sorriso constante, uma atitude ereta e uma confiança que preocupou as autoridades.

A vida da menina incluía ainda, artes plásticas, muita música tradicional brasileira, aulas de música particular, e a perda de tempo nos domingos, quando ela deveria estar descansando em frente à TV se preparando para o futuro quando saberia como desfrutar seu dia fora do emprego, freqüentando igreja e vida paroquial.

A obsessão da menina com a separação de lixo e cuidado com a água chamou a atenção das autoridades que sabem perfeitamente bem que simplesmente participar da reciclagem comandada pelas prefeituras e preocupar-se com o consumo consciente é o suficiente, desde que o consumo seja mantido e que se delegue tudo às autoridades competentes.

Os pais da menina não exibiam nenhuma preocupação quanto ao mercado de trabalho futuro da criança, e não a direcionaram no sentido de poder ela fazer parte de um intercâmbio, de idiomas aprendidos em cursos regulares e principalmente algo que lhe desse a certeza de uma carreira com sucesso financeiro: uma carreira decidida desde cedo. Ao contrário permitiam a livre expressão de seus interesses fúteis na natureza, nas longas horas em diálogo e conversas sobre a vida, história e família. Ao invés de prepararem a filha para um mundo competitivo e de mercado, insistiam os cuidadores na pueril prática da cooperação, trabalho compartilhado e solidariedade, esta última notoriamente mais uma tarefa que deveria ser sempre do governo.

Finalmente, após essa captura do último resistente às políticas públicas, parece que nos encaminhamos para um futuro livre do tolo pensar em liberdade, às custas de prejuízo ao desenvolvimento econômico, à maximização de lucros e ao pleno emprego. Depois de muito lutar, agora cada brasileiro pode pensar em uma aposentadoria segura e em dias melhores, com consumo aquecido e baixa inflação, no fundo a única coisa que interessa. Algo que nos livra de sermos eternos tupiniquins.

O caso está sendo analisado pelas autoridades que se encontram divididas sobre se enviam a mocinha para um centro de recuperação ou a congelam para exibição em um museu histórico. Os pais foram encaminhados para o devido processo judicial e devem submeter-se a um tratamento de ressocialização após a prisão, que permita a estes perigosos elementos para o sistema voltarem a se enquadrar na feliz vida do consumo apático em família.

Por Claudio Oliver

Link Original : Na rua com Deus

1 Comentario para A ÚLTIMA CRIANÇA FORA DA ESCOLA

20 de janeiro de 2010 09:25

"Tardes inteiras de Shopping foram perdidas por essa pequena infeliz."

muito bom o texto. Descreve com fidelidade o que o homem contemporâneo tem se tornado: um robô consumista.

Parabéns Mikhail!

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