Posted by Maximiliano Merege Categories: Marcadores: , , ,

Sempre quando ouvimos alguma música é comum darmos uma importância maior ao intérprete que a canta ou ao conjunto que a desempenha, mas infelizmente, neste mundo de meros consumidores, a parte mais crucial, formada por compositores, maestros e demais músicos, acaba sendo deixada de lado. E é justamente em homenagem a um desses ilustres anônimos que a coluna de hoje é dedicada!

Carol Kaye nasceu no noroeste dos EUA, em março de 1935. De família de músicos, começou cedo no ofício. Aos 14 anos já era conhecida como uma talentosa guitarrista de big bands. Em pouco tempo, passou a lecionar aulas sobre um novo instrumento que então surgia, a guitarra elétrica, criação de Les Paul. Assim sendo, ganhou fama como uma das primeiras guitarristas da história.

Em meados da década de 50, quando os melhores músicos corriam a estrada com caras como Elvis Presley, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis, Gene Vincent, Roy Orbinson e muitos outros, acontecia uma escassez de músicos de estúdio, e os poucos que se encontravam disponíveis, além de terem um custo muito alto, freqüentemente declinavam de convites para gravar rock'n'roll, tementes às possíveis retaliações do mercado (!!!).

Foi justamente nesse impasse que a jovem Carol Kaye encontrou seu lugar ao sol...


1955, na Henry Busse's Band.


Em 1957, Sam Cooke, um famoso cantor de rhythm'n'blues e soul, procurava urgentemente um guitarrista e um baixista para gravar em suas músicas. A escolhida para as guitarras foi Carol Kaye, uma professera com grande experiênça em guitarras jazzísticas. Entretanto faltava alguém para tocar os baixos. Nisso, o estúdio já dispunha da nova criação de Leo Fender: o Fender Bass.

A idéia principal do Fender-bass era a de executar o som dos baixos, mas com a praticidade de uma guitarra elétrica, já que até então a função cabia tão somente aos rabecões, que apesar de terem um charme único e indelével pela ação do tempo, ainda sim perdiam no quesito praticidade.

Kaye pediu apenas uma tarde para conhecer o novo instrumento... No dia seguinte, já o dominava quase tão bem quanto à guitarra. Enfim, para Sam Cooke, gravou tanto as guitarras quanto os baixos dos discos "Sam Cooke" (57) e "Encore" (58).


capa da coletânea CAROL KAYE, The First Lady On Bass


A fama se espalhou, e em pouco tempo Carol Kaye teve de reduzir suas aulas para ocupar-se apenas do ofício de músico de estúdio e de mãe de família também.

Escreveu métodos de guitarra e foi a responsável pelo (efetivamente) primeiro método de baixo-elétrico da história: "Como Tocar Baixo-Elétrico" (69); que até hoje é seguido! Aliás, foi ela quem quem rebatizou o instrumento, de "Fender-bass" (baixo fender) para "electric-bass" (baixo-elétrico).

Ultra requisitada, Kaye, além de estar à frente do Wreckin' Crew (a maior orquestra de estúdio dos EUA), tornou-se presença constante nos maiores estúdios de Los Angeles.

Para se ter uma idéia de sua importância na música pop, basta levarmos em conta que no decorrer da década de 60, 9 entre 10 hits do pop norte-americano, seguramente têm os dedos dessa Rainha. Afinal, ela gravou nada menos que 10.000 músicas!!!

Exemplos não faltam, já que além de constar nos discos de Henry Mancini (Peter Gun, A Shot In the Dark, The Pink Panter theme etc), Lalo Schifrin (Missão Impossível) e Quincy Jones, também gravou inúmeros temas para a TV (Família Addams, Hawaii 5-0, Mulher Maravilha, M*A*S*H etc) e também foi a baixista preferida de jovens maestros como Frank Zappa e Phil Spector, tendo participado de hits memoráveis como "River Deep, Mountain High" (Tina Turner), "Unchained Melody" (Righteous Brothers), "Be My Baby" (Ronettes) etc.



Ah sim, Lady Kaye também esteve presente no surgimento da surf-music, o primeiro "boom" do rock instrumental, pois gravou inúmeras pérolas com o guitarrista Dick Dale, participou de gravações cruciais dos Lively Ones, dos Marketts e dos Centurians, isso sem falar que seus baixos e guitarras aparecem em quase todos os discos de Jan & Dean e dos Beach Boys de então, que aliás, contavam frequentemente com o mesmo trio de feras do Wrecking Crew: Carol Kaye (guitarras e baixos), Glenn Campbell (guitarras) e Hal Blaine (bateria e percursão).

Para não deixarmos de citar, o baixo que discretamente aparece na gravação de estúdio de "Light My Fire", dos Doors, foi gravado por ela! Vale lembrar que o bateirista Mitch Mitchel sempre frisa sua inesquecível experiência de um dia ter gravado com ela e com Jimi Hendrix.


1974


Hoje em dia, Carol Kaye se encontra aposentada das rotinas frenéticas, contudo, continua gravando e recebendo por todo seu trabalho ao longo dos anos (só pelas músicas que aparecem em filmes de Quentin Tarantino, Kaye recebe todo mês alguns milhares de dólares pelos direitos de execução).

Homenagens são uma constante em sua vida, já que caras como Brian Wilson, Paul McCartney, Geezer Butler e Sting, frequentemente lhe prestam seus respeitos publicamente. Não faz muito, participou do disco "Smile 2004" de Brian Wilson e também de gravações com Frank "Pixies" Black.

Bom, meus caros, por enquanto é isso. Até a próxima!


Brian Wilson & Carol Kaye


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Max Merege é um pesquisador musical de Cuiabá. De tão tinhoso que é, conseguiu até identificar a Carol Kaye na musiquinha de espera do PABX do Jornal FOLHA DO ESTADO: "Wichita Lineman", por Glenn Campbell e Carol Kaye.

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ORIGINALMENTE PUBLICADO
28 de Dezembro de 2008

Caderno FOLHA 3
Jornal FOLHA DO ESTADO
Cuiaba - Mato Grosso

2 Comentario para CAROL KAYE, A PRIMEIRA DAMA DO BAIXO

27 de fevereiro de 2009 07:39

BOA, MAX!
VOU TER QUE VIRAR ALUNO DESSA SENHORA!

Bruno Tiasques
1 de março de 2009 18:11

Uau, que currículo ela tem, heim?! Até o baixo de de "Light My Fire" dos Doors tem dedo dela!

Massa, massa mesmo!

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