Posted by Maximiliano Merege Categories: Marcadores: , , , ,

Na última quarta feira de cinzas, o humor, a dramaturgia e a mpb, acordaram órfãos de um de seus maiores talentos nos últimos 50 anos: Arnaud Rodrigues partia! Foi na noite de terça feira ainda, quando o barco em que ele viajava com a esposa e dois netos, no Tocantins, naufragou. Seus familiares conseguiram ser salvos, mas ele não.

Talvez as lembranças mais comuns venham de "A Praça É Nossa", onde interpretou tipos inesquecíveis como o Cel. Totonho, o Povo Brasileiro e o Chitãoró; e de personagens que, em muitas vezes, roubavam a cena em novelas globais, como o ceguinho Jeremias, o personagem mais visionário de Roque Santeiro (1985), o Mr. Soul, de Partido Alto (1984) e o retirante Soró, de Pão-Pão Beijo-Beijo (1983); Soró, aliás, fez tanto sucesso que reapareceu no filme "Os Tapalhões e O Mágico de Oroz" (1984), cujo reteiro fora escrito pelo próprio.

Nos últimos dez anos, graças as facilidades da internet, sua obra musical ganhou um novo status e uma nova legião de fãs.

No começo da década de 70, Caetano Veloso e Gilberto Gil enfrentavam sérios problemas com a ditadura militar, como a prisão e, consequentemente, um exílio na Inglaterra. Solidários com a situação dos artistas, Arnaud Rodrigues e Chico Anísio firmaram uma forte parceria e encarnaram o grupo Baiano & Os Novos Caetanos, uma espécie de Monkees tropicalista. Arnaud vivia o Paulinho, e Chico, o Baiano. Sua idéia principal era homenagear de modo cômico os principais nomes do Tropicalismo: Os Novos Baianos, Gal Costa, Mutantes, e também Maria Betânia. A dupla lançou hits como “Vô Batê pa Tu” e “Urubu tá com Raiva do Boi”. Letras inteligentes e arranjos que casavam o tradicional da música regional com o pop moderno. Uma profusão de fusões de forrós, modas de viola e afins, recheados com guitarras distorcidas e efeitos psicodélicos, tudo possível graças à visão de Arnaud e aos arranjos de maestros como Nonato Buzar, Waltel Branco, Guto Graça Mello e outras feras mais. Feito a princípio como trilha de programa humorístico, o trabalho rendeu excelentes posições nas paradas de sucesso, já que refletia todo o momento por que passava o Brasil, como as delações, o progresso desenfreado, a crise nos valores humanos, a volta às raízes no campo etc. A empreitada deu certo e logo mais ele lançou "O Som do Paulinho", que seguia o mesmo espírito bucólico psicodélico da dupla e que trazia a lissérgica "Murituri".

Já nos anos 80, foi a vez da tele-dramaturgia e por conseguinte, a volta ao humor.

Lá pelo final dos anos 90, após uma visita ao Tocantins, gostou tanto do lugar que levou a família toda para lá morar. Continuou escrevendo para várias publicações e regularmente aparecia no programa "A Praça É Nossa", mas foi em Tocantins que ele passou a se dedicar a uma outra paixão: o futebol! Tornou-se cartola e ajudou o Palmas a se destacar no Campeonato Brasileiro e a conquistar um tricampeonato estadual.

Hoje, apenas dois discos de Baiano e Os Novos Caetanos são encontrados na forma digital "oficial" (a.k.a. cedê de loja), contudo, todos os demais trabalhos tornaram-se figurinhas fáceis pela internet, o que vale para se conhecer a obra, mas que em nada substitui o peso de um elepê.

Em termos artísticos, sua partida é uma perda tão grande quanto as mortes de Mussum e Zacarias. Antônio Arnaud Rodrigues foi, é e sempre será um mestre à frente de seu tempo e que descanse em paz onde estiver.


Vô batê pá tú
(Arnaud Rodrigues / Orlandivo)

Falou, é isso aí malandro
Tem que se ligar aí nesse som, tá sabendo...
Eu vou bate pá tú, pá tu bate pá tua patota

Vou batê pá tu bate pá tú
Pá tú batê...

Pá amanhã a pá não me dizer
Que eu não bati pá tú
Pá tú pode batê

O caso é esse
Dizem que falam que não sei o que
Tá pá pintá ou tá pá acontecer
É papo de altas transações

Deduração, um cara louco
Que dançou com tudo
Entregação com dedo de veludo
Com quem não tenho grandes ligações

Vou batê pá tu bate pá tú...

Tá falado, tu tem que se ligar....
É isso aí, falou

Vou batê pá tu bate pá tú...


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Artigo originalmente publicado no Jornal Folha do Estado, Cuiabá-MT, domingo, 21/02/2010.


Batê Pa Tu


Turma do Pô, Yeahhhhh


Chico City, 1973


Cidadão da Mata


Um Tanto Emocionado


Som do Paulinho


Ciranda


Big Mama


Reencontro


Chegou da Bahia


A Praça É Nossa

1 Comentario para Antônio Arnaud Rodrigues

1 de março de 2010 15:25

Parabéns Max! Sempre muito elegante e atento aos acontecimentos da "boa música brasileira". Realmente um texto de altíssima qualidade, na altura de Arnaud Rodrigues!

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