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AQUELE VELHO SORTUDO, O SOL …



Há exatos dois mêses, o cantor e compositor norte-americano Brian Wilson lançou o disco “That Old Lucky Sun”, que contou com a participação mais que especial de Van Dyke Parks, um velho amigo e parceiro de longa data, na composição das letras.

“That Old Lucky Sun” surge em um momento mais que oportuno (os EUA têm encarado maus bocados ultimamente!), pois ao mesmo tempo em que evoca imagens de um passado contrastante, também ajuda a reescrever um futuro, na esperança de que mesmo em tempos tão difíceis é possível fazer boa música.

Para os saudosistas, um prato cheio de sonoridades que nunca envelhecem. Para os leigos, um prato cheio de “barulhinhos” delíciosos e canções perfeitas para se ouvir no último volume, ao final da tarde, curtindo um happy hour!

Entretanto, este disco nunca teria saído se BW não tivesse pavimentado seu caminho, ao longo de muitos e muitos anos…



PET SOUNDS E O CONCEITO DE ALBUM CONCEITO



Há quem afirme que o dito rock progressivo tenha surgido com os Beatles, ou também da psicodelia garageira que perdurou no primeiro mundo entre 1964 e '68 (Pink Floyd é o exemplo mais comum!).

Fato é que as verdadeiras experimentações no rock só vieram mesmo à tona - para o grande público - quando Brian Wilson, à frente dos Beach Boys, e que havia 5 anos colecionava um hit atrás do outro, lançou em 1966 a pérola sonora "Pet Sounds", o primeiro disco da história a esgotar todos os recursos técnicos de estúdio até então disponíveis e a explorar, como ninguém, os limites da percepção humana.

Ainda que fossem bons músicos na estrada, os Beach Boys propriamente, só gravavam as vozes. Para BW, o trabalho de estúdio precisava ser tercerizado mesmo, uma vez que o album "Pet Sounds" foi inteiramente escrito e arranjado por ele (salvo algumas co-autorias nas letras) e teve toda a parte instrumental gravada pelos melhores músicos de estúdio da época.

Para se ter uma idéia da importância, basta lembrar que até então a produção de um artista da música pop se baseava na cultura dos “singles” e em critérios canônicos estabelecidos pelas gravadoras, firmados em músicas de trabalho e hits em potencial, por exemplo.

“Pet Sounds” inaugurou a era dos "discos conceito". As músicas passavam a ser interdependentes, como se uma faixa fosse a continuação da anterior, como capítulos de um filme.

Mas voltando ao "Pet Sounds", o episódio mais conhecido de sua supremacia foi o fato de o então beatle Paul McCartney ter todos seus sentidos mexidos após ouvir o disco (sensação semalhante a de orgasmos múltiplos!), tanto que até hoje ele cita a faixa "God Only Knows" como a melhor música já feita na história! Tamanho foi o encanto exercido que, logo após escutá-lo, McCartney correu para o produtor da banda, o maestro George Martin, e pediu-lhe "encarecidamente" para orientar os Beatles na composição de uma obra tão linda quanto aquela preciosidade vinda da Califórnia. Não demorou muito e nasceu assim "The Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band"...



UMA SINFONIA ADOLESCENTE PARA DEUS



Ao ouvir "The Sgt. Peppers...", Brian Wilson sentiu na alma e na carne a mesma sensação que Paul McCartney antes sentira ao ouvir "Pet Sounds". Não deu outra: decidiu que era hora de ir "à forra"! Lançou mão do mesmo time presente em Pet Sounds e da parceria de seu amigo Van Dyke Parks, um músico e poeta fruto da beat generation, e assim iniciou o projeto “Smile”...

Inspirado em Phil Spector e no maestro Esquivel, BW se enfiou de cabeça nos estudos da música contemporânea (minimalismo, serialismo, música aleatória etc) e no fantástico mundo das drogas psicodélicas.

“Smile” foi definido pelo próprio BW, do alto de seu deslumbre lissérgico, como “uma sinfonia adolescente para Deus”. O disco em si já havia sido todo composto e teve inúmeras horas de gravação de estúdio. Todavia, no meio-tempo em que se cunduzia a execução do trabalho, os Beatles já haviam lançado uma seqüência de outros petardos, como o filme "Yellow Submarine", "Magical Mistery Tour" etc. Já com seu cérebro literalmente corroído pelas drogas e por um trabalho que nunca se concluia, BW acabou saindo de órbita e dos Beach Boys também, deixando assim uma obra inacabada.

Tamanha foi a densidade do projeto “Smile”, que os próprios Beach Boys remanescentes cuidaram de "esquartejar" o repertório e montar os 6 discos subseqüentes da banda. O material bem que saiu, mas sem o aval de BW!


ANOS MAIS TARDE...

Chegando os anos 90, após duas décadas e meia de muitas idas e vindas, BW enfim está limpo!

Retomando em 1995 sua parceria com Van Dyke Parks, faz o modesto porém honesto album “Orange Crate Art”, que segundo muitos fãs, soa como “desfecho” para uma trilogia bizarra iniciada em ’66 com a perfeição absoluta de “Pet Sounds” e permeada pelo caos de um “Smile” inacabado.



SÉCULO XXI



Em 2002, amparado pela banda The Wondermints, BW reproduz ao vivo o clássico Pet Sounds, sob o nome de “Brian Wilson Presents Pet Sounds”, respeitando à risca a ordem das músicas e os arranjos originais!

Na carona desse sucesso e por sugestão dos Wondermints, o projeto “Smile” é retomado em 2003, sob a forma de um show ao vivo. A idéia deu tão certo que o pessoal se reuniu em estúdio para o filtrar todo o material já gravado em '67, estabelcer as devidas emendas e assim concluir de uma vez por todas sua “sinfonia adolescente para Deus”. O time era encabeçado por ninguém menos que o próprio BW e o letrista Van Dyke Parks, com o suporte dos próprios Wondermints, alguns ex-músicos de estrada dos Beach Boys mais uma mini-orquestra, de afinação impecável!


O cd “Brian Wilson Presents Smile” finalmente sai em 2004, o que rende a BW um certo reconhecimento tardio, marcado por matérias jornalísticas em todos os veículos possíveis, ótimas vendas, recorde de downloads, várias indicações ao Grammy etc. Justiça essa que o tempo cuidou de fazer...

Dos Beach Boys, os irmãos Dennis e Carl Wilson já não se encontravam mais pelo mundo dos vivos. Nesse interim, enquanto Mike Love, Al Jardine e Bruce Johnston ainda vivem às turras pelos tribunais e excursionando em tournées caça-níqueis, Brian Wilson colhe os louros da glória de ser uma das personalidades mais influentes na história da música pop. Inclusive, há cerca de 2 anos, BW até veio tocar no Brasil, mas é uma pena que não tenha vindo ao Pantanal...



Discos recomendados:


Beach Boys: Greatest Hits Vol. 1/ Vol. 2 / Vol. 3 (coletânea) e Pet Sounds (1966)

Brian Wilson: Love And Mercy (1988), Orange Crate Art (1992), Pet Sounds Live (2002), Brian Wilson Presents Smile (2004) e That Old Lucky Sun (2008).



Boneco Comemorativo. PET SOUNDS, 40 anos em 2006


Este artigo foi originalmente publicado dia 2/Novembro/2008, na coluna ENROLANDO O ROCK, no caderno de cultura do jornal FOLHA DO ESTADO, Cuiabá - MT




1 Comentario para ENROLANDO O ROCK: COMO BRIAN WILSON MUDOU A HISTÓRIA DA MÚSICA POP - por Max Merege

Gelésio
4 de novembro de 2008 19:24

TÁ MALANDRO, HEIN !!!!!!!!!!!!!

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